Será que o Brasil precisa de caças modernos?
Já faz mais de dez anos que a Força Aérea Brasileira busca adquirir caças modernos para substituir a sua frota de caças de primeira linha; de 2001 a 2005 foi o projeto FX... de 2006 a 2011 foi o FX/2... e agora não se sabe como ficará tal aquisição, se e quando ocorrerá.
Na minha opinião, o processo de escolha de caças, pela sua natureza específica de defesa, portanto relativa à segurança nacional, não pode ser guiada como um processo licitatório comum, como se fosse a compra de carros para órgãos públicos.
Poderia o governo FHC ter decidido pela compra de caças na época do FX, com base na avaliação da FAB: os concorrentes, Dassault Mirage 2000-5, Saab JAS-39C Gripen, Sukhoi Su-35 e Lockheed-Martin F-16C Bloco 52, certamente representavam, à época, uma imensa melhoria frente ao que a FAB tinha disponível (eram os Mirage IIIEBR e os F-5E). Mas não quis o governo decidir. E o FX previa apenas a compra inicial de 12 a 24 caças para substituir os Mirage IIIEBR.
Veio a suspensão do FX, e a FAB continuou tentando o reequipamento da sua Aviação de Caça. Com a vida útil dos Mirage IIIEBR findando, em 2005 se confirmou a compra de 12 Mirage 2000C usados, provenientes da Força Aérea Francesa, para substituir aqueles. Os Mirage 2000C já vieram, no entanto, com data marcada para a sua aposentadoria, por volta de 2015.
Ao mesmo tempo prosseguia o programa de modernização dos F-5E/F, resultando no padrão F-5EM/FM. Com o primeiro exemplar entregue a um esquadrão da FAB em 21/09/2005, a FAB conseguiu dar um salto relativo de modernidade frente ao que tinha à disposição antes, tanto em planejamento e debriefing de missões, uso de simulador para treinamento, radar de longo alcance e mísseis BVR (Rafael Derby). Dentro das limitações de uma aeronave cujo conceito data da década de 1960, foi um passo acertado, em que pese todas as dificuldades orçamentárias.
Com o governo Lula, reiniciaram-se as tratativas, dessa feita para um máximo de 36 aeronaves e respectivos suprimentos (motores e demais peças) e armamentos (mísseis ar-ar, bombas inteligentes, etc), agora dentro do chamado FX/2; eram outros competidores, sendo que três firmaram-se ao longo do processo como candidatos a reequipar a FAB: Dassault Rafale, Gripen NG e Boeing F/A-18E/F Super Hornet.
No programa FX/2, mais do que no anterior, o quesito "transferência de tecnologia" apareceu com peso muito forte e, na minha opinião, ele é o responsável por esconder as inúmeras tratativas que ocorreram durante o processo e, na verdade, por atrasar a decisão e levar à sua postergação em março de 2011.
Digo isso porque acredito que a avaliação das qualidades das aeronaves propostas, feita pela FAB, certamente indicou um que melhor se adequa à realidade histórica das nossas forças armadas: elas operam no limite, com parco orçamento e recursos. Esses recursos não são adequados para manter treinados nossos pilotos, em patamares que os permitam - caso seja necessário - sobreviverem aos combates e trazerem a vitória, garantindo a soberania do Brasil. É para isso, no fim das contas, que a Força Aérea Brasileira existe.
O problema é que aeronaves militares tem quatro dimensões, como disse Sir Sidney Camm (britânico, famoso projetista de aeronaves de combate, como Hurricane e o Hunter): comprimento, altura, envergadura das asas e... política! Ninguém pode ser ingênuo de pensar que a compra de aeronaves de caça é uma equação na qual a política é uma variável desconsiderada; afinal, há a toda a questão do alinhamento entre as nações, qual a posição que a compradora adota e/ou quer adotar no cenário internacional. Mas o posicionamento político não pode atrapalhar o processo de avaliação na escolha do melhor caça (ou de qualquer outro produto militar de alta tecnologia).
Infelizmente, foi o que ocorreu, quando o ex-presidente Lula anunciou, no 7 de setembro de 2009, que o Brasil iria se tornar parceiro estratégico da França, e que iria iniciar as tratativas para a compra do Dassault Rafale. Sequer a FAB havia finalizado os relatórios de avaliação das propostas já entregues e o presidente anunciava quem era o vencedor da competição!
Acredito que aquele fatídico 7 de setembro selou o destino do FX/2. A FAB evidentemente não gostou do que aconteceu, o ministro da Defesa interviu, exigindo que o relatório final da FAB não indicasse o vencedor. Acabou-se por dizer que "qualquer um dos três concorrentes, se escolhido, satisfaria as necessidades da FAB".
Bem, não precisa de muito estudo para se chegar a tal conclusão, tendo em vista as diferenças de equipamento, sistemas e armamentos existentes entre os F-5EM e os concorrentes! Mas não é verdade que qualquer um deles satisfaria a FAB. Ela conhece muito bem o que é operar caças de fabricação norte-americana e francesa, no que tange ao que se contrata e ao que se recebe.
Enfim, o FX/2 foi postergado e o ponteiro do relógio não para. Então, respondendo à questão proposta no início: o Brasil precisa de caças modernos, sim. Usando uma expressão coloquial, temos tido muito, mas muito mais sorte do que juízo, na medida em que nossos vizinhos próximos não tem meios e/ou vontade e/ou doutrina militar para desejar uma confrontação com o Brasil. Mas temos riquezas naturais que, dentro de um curto espaço de tempo (talvez menos de uma década) passem a ser muito cobiçados - água, petróleo, minérios e alimentos. E é necessário que estejamos bem defendidos.
Talvez não seja possível nem indicado padronizarmos toda a Aviação de Caça da FAB num único vetor; devido ao já mencionado parco financiamento das nossas forças armadas, é possível que tenhamos de usar uma configuração 1+1 (alguns caças modernos, mais caros de operar, e muitos caças modernizados, mais baratos). Mas é necessário termos caças modernos, bem equipados e com tripulações treinadas adequadamente - inclusive com lançamento periódico de armamento, para manter a proficiência de combate (isso inclui mísseis ar-ar).
E agora coloco de novo a questão da "transferência de tecnologia". É importante, sem dúvida, na medida em que a aquisição de tecnologia de ponta, na área da aviação militar, tem reflexos na produção de aeronaves civis e em outras áreas da tecnologia, que se traduzem em aumento da riqueza das nossas indústrias e, portanto, do País. Isso já aconteceu no Brasil, com a Embraer e o AMX - o que se aprendeu naquele projeto acabou por se refletir na Embraer de hoje, uma das maiores fabricantes de jatos comerciais do mundo.
Mas a transferência de tecnologia não pode ser colocada em 1º lugar, a meu ver, como critério na aquisição dos caças para a FAB. Ela é um subproduto da compra do melhor caça que atenda às nossas necessidades de defesa, que seja capaz de ser operado pela FAB e que conte com a decisão de Estado - não de um governo, mas de todos os governos - de que é necessário financiar adequadamente a FAB (e todas as demais forças armadas).
Tomara que possamos esperar para adquirir esses caças - e mais tudo o que falta para reequipar as nossas forças armadas, como sistemas de artilharia antiaérea - antes que algo inesperado aconteça...
"No bastard ever won a war by dying for his country.
He won it by making the other poor dumb bastard die for his country."
[Frase atribuída ao Gen. George S. Patton].